Uma discussão espinhosa surge quando se pretende classificar o nazismo como esquerda ou direita. Direitistas ávidos vão dizer que ele é de extrema esquerda, salientando os aspectos estatizantes deste regime, já socialistas vão colocá-los, na direita, de preferência na extrema direita, frisando a perseguição que Hitler fez aos comunistas e sociaisdemocratas. O fato é que o Nazismo é a ideologia mais mal vista da atualidade, é um filho que ninguém quer assumir, ninguém quer estar perto dele, por que isso pega muito mal.
Adolf Hitler escreveu muito sobre Marxismo na sua obra Mein Kamp. Geralmente para desdenhá-lo. Mas ao mesmo tempo Hitler mostra que desde cedo estudou o socialismo de Marx e é a partir das ideias de Marx que ele passa construir a Nacional Socialismo, mesmo que negando-o. O Mein Kampf é tanto uma critica do socialismo marxista quanto uma apresentação do nacional socialismo, e principalmente, um esforço de Hitler para diferenciá-lo um do outro. Esta grande necessidade de delimitar diferenças se devia justamente ao fato de eles parecerem muito semelhantes e competirem pelo mesmo público-alvo: os trabalhadores alemães. A posição de Hitler no Mein Kampf lembra a de qualquer publicitário tentando convencer o público de que o seu produto é melhor do que o da concorrência.
Mas em certas partes ele reconhece parcialmente que sua tese não se diferenciaria do socialismo marxista não fosse alguns pontos chave:
A concepção racista deve ser completamente diferenciada, desde que aquela reconhece o valor da raça, como o do próprio indivíduo, duas colunas sobre que deve repousar todo o edifício. Esses são fatores básicos na sua maneira de mudar o mundo.Hitler demarca aqui as diferenças entre seu socialismo e o de Marx, o primeiro é não destacar a vontade do coletivo, de fato Hitler deixa muito claro que queria o poder e que a vontade do governante deveria prevalecer.
Se o movimento nacional-socialista não compreendesse a importância fundamental dessa verdade mas, ao contrário, em vez disso procurasse por remendos ao Estado atual e visse no ponto de vista das massas um ponto de vista seu próprio, transformar-se-ia em um partido de concorrência ao marxismo. Não teria então o direito de falar em uma nova doutrina (grifo meu)
Em segundo, um fator para diferenciar o socialismo de Marx do de Hitler é o nacionalismo deste último, que já fica expresso no seu nome (nacional socialismo). Hitler abominava o internacionalismo do socialismo marxista, que considerava uma armadilha para acabar com a identidade do seu povo e permitir o domínio dos judeus. Essa mescla de nacionalismo com socialismo não era ideia original sua, Stalin já havia feito a mesma coisa dentro do socialismo soviético nesta época, entrando com isso em conflito com os socialistas internacionalistas do partido comunista, como Trotsky e Bakurin.
Por último e talvez mais importante, o nazismo substituiu a luta de classes pelo racismo. No marxismo o bode expiatório para os problemas do mundo eram os "burgueses", no nazismo eram os "judeus" e demais estrangeiros. A mudança do bode expiatório é um detalhe que não muda o enredo básico destas doutrinas: nós não somos culpados pelos nossos problemas, mas sim um terceiro grupo, e por isso devemos nos unir para enfrentar esse inimigo comum. O efeito psicológico disso é "agora não precisamos mais nos sentir responsáveis pela nossa miseria, pois na verdade a culpa não é nossa, mas desses desgraçados que estão nos roubando/explorando, sem eles nós seriamos grandes, por isso precisamos eliminá-los".
Do ponto de vista econômico guardavam grandes semelhanças, sobre estas vou apenas indicar este artigo que as explica muito bem: Por que o nazismo era socialismo e por que o socialismo é totalitário.
Não nego que o nazismo era de direta, ele é justamente uma releitura de direita do socialismo. Socialismo era algo muito, muito pop nesta época, a direta acabou cedendo à ele também.
"Face à derrota na I Guerra Mundial e à crise social e política que se seguiu, surge um grupo de intelectuais identificado como a "Revolução Conservadora" (Moeller van den Bruck, Ernst Junger, Edgar Jung, Oswald Spengler, etc.), radicalmente opostos ao novo regime parlamentar-liberal e ao Tratado de Versalhes e defendendo uma síntese entre o conservadorismo e o socialismo6 - um "socialismo alemão" que, ao contrário do marxista, não se basearia no materialismo e na luta de classes, mas sim na solidariedade entre as classes e nas tradições prussianas de disciplina e autoridade (aliás, já antes Bismark havia tentado conciliar o conservadorismo com as reivindicações sociais, com politicas que deram inicio ao Estado de Bem-Estar, ver: Modernização conservadora)." http://pt.wikipedia.org/wiki/ConservadorismoConcluo que o Nazismo foi resultado da obra de uma vanguarda direitista que, temendo os efeitos da imigração sobre o seu status quo e convencido de que a nova doutrina economica que se espalhava pela Europa, o socialismo, representava o futuro e, temerosos que esta fosse implantada pela esquerda socialista tradicional, o que representaria uma ameaça ao seu status quo, fundaram um socialismo de direita, um socialismo que não fosse revolucionário mas que, pelo contrário, que representasse o engessamento das estruturas sociais em favor dos alemães, impedindo a ascensão do que eles consideravam uma ameaça à este status quo, os imigrantes.
Por fim agradeço ao blog questões relevantes, que participou desta discussão.
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